India II – a técnica do Block Print vista de perto

Um dos principais motivos que motivou esta viagem à Índia foi, como já dissemos, presenciar e poder conhecer mais de perto a mais antiga e fascinante técnica de impressão em tecido, o Block Print.

Sinto-me uma privilegiada por ter tido a oportunidade de visitar duas das mais importantes oficinas em Bagru (uma vila perto de Jaipur), onde se pratica esta técnica de forma mais artesanal. Só foi possível por intermédio de amigos de amigos, que me levaram aos locais mais consagrados nesta área, empresas centenárias que vendem a outras empresas e que, por esse motivo, dificilmente abririam a porta a clientes meramente dispostos a fazer “turismo”.

Fiquei estupefacta com a complexidade dos processos, ainda que recorrendo a ferramentas e condições bastante rudimentares. A começar pela produção das tintas à base de produtos naturais. No caso da cor preta, restos de ferragens (antigamente usavam-se as ferraduras das patas dos cavalos) são misturadas com melaço e deixados a repousar dentro de um balde durante 15 dias. Ao final desse tempo, é adicionado pó de sementes de tamarindo que funciona como uma espécie de espessante. E voilá, temos cor preta!

Tal como a maioria das técnicas artesanais na India, a arte da gravação dos blocos (carimbos de madeira) passa de pai para filho. Explicaram-me que restam apenas três famílias em Jaipur que praticam a arte de gravação de forma mais artesanal e que, dentro de alguns anos, poderão ser menos. Os blocos produzidos por estas famílias são de muita qualidade mas também muito caros, acabando por encarecer a técnica de estamparia logo de início.

O processo de estamparia propriamente dito é algo muito bonito de presenciar. É incrível a rapidez e a perícia com que esta senhora o fazia, acertando o rapport para que não existissem falhas no padrão. As paredes das oficinas estão repletas de caixas que armazenam blocos, alguns com centenas de anos.

Presenciei ainda processos específicos de estamparia por bloco, do tipo “die resistant”. No caso do “Dabu”, começa com a preparação de uma lama (à qual se chama dabu) que é aplicada no tecido através dos blocos. De seguida, o tecido é polvilhado com serrim. A lama e o serrim vão funcionar como uma espécie de máscara, protegendo certas áreas do tecido (correspondentes ao desenho do padrão) durante o processo de tingimento. Assim, o padrão funciona em “negativo” face à cor aplicada no tecido. Os tecidos poderão ser levados a tingir diversas vezes de forma a atingir-se diferentes tons no desenho. Inclusive, o processo de aplicação da lama com os blocos poderá ser repetido duas e três vezes no mesmo tecido, por isso, podem imaginar o trabalho e o tempo que está envolvido na produção de uma só peça!

Claro que não podíamos vir embora sem comprar alguns metros destas obras de arte… E achei particularmente interessante e até confortável o facto dos “negócios” serem feitos literalmente no chão! Nos armazéns, os tecidos empilham-se sem organização aparente. A quantidade de cores e padrões é tal que não conseguimos fixar o nosso olhar nem por um segundo.

Tivemos ainda a oportunidade de conhecer a empresa Indubindo, uma startup sediada em Deli de produção e venda online de vestuário feminino, usando unicamente tecidos produzidos artesanalmente na Índia. Aqui pudemos observar cada fase de desenvolvimento, desde o desenho dos modelos, à mão e tendo já como referência uma seleção de tecidos, à modelação, corte, costura e acabamentos. É tudo tão bonito, as pessoas tão amáveis… espero partilhar ainda mais sobre esta minha viagem num próximo artigo!